segunda-feira, 8 de março de 2010

Carta a Baudelaire nº 4

Ao ser comum da minha geração, que age apenas por sua naturalidade, a espiritualidade das vestimentas e da moda nunca lhe farão sentido. Este nunca se atentará a poesia e a rebelião guardada ali. Nunca perceberão a conduta humana em direção ao sublime naquela indumentária. Acho fantástica sua frase: “a moda deve ser considerada como uma deformação sublime da natureza”. Tenho ainda a dizer que, para mim, a moda continua a ser um esforço da modernidade em direção ao belo e também continua a ser um retrato da insatisfação humana. Viver naturalmente ainda é muito fácil.
A uma mulher que deseja surpreender os espíritos, fascinar e despertar admiração precisará buscar entender a poesia da moda e submeter-se a escola da distinção.

Carta a Baudelaire nº 3

Sobre a nossa tendência natural devo dizer que amedronta. Confirmo o que disse sobre a natureza; “apenas a voz do nosso interesse”. Inegavelmente se agirmos pela natureza, os resultados serão aterrorizantes. E por isso me apego a essa busca incessante pelo belo e pelo nobre, que é fruto de razão e do cálculo. Aprende-se a matar ou a roubar facilmente, não sendo necessário esforço além do que a vida em comum entre as pessoas. No caso das virtudes, é necessário buscar o sobrenatural, como em todas as épocas deuses, profetas e sacerdotes para ensinar a humanidade animalizada. O mal é praticado sem esforço, naturalmente. Com tudo isso que você expôs, sinto confortável em prosseguir com minha conduta de defesa ao homem nobre, que julgo de espírito elevado. E também exibo minha aversão à realidade. Considero-me um rebelde.

Carta a Baudelaire nº2

Venho agora dizer-lhe que a moda em meu tempo está tão banalizada que acho difícil encontrar a poesia nas roupas deste século. Mas, sem dúvida existem ainda seres divinizados que andam pelas ruas e noites das cidades exibindo suas belas formas com seus tecidos e acessórios. Essas belas criaturas prendem a atenção a seu porte e ao movimento de seus membros. E ao observar seu andar, o admirador filósofo pode dar sentido à vida naquele instante, por ver a exaltação da inteligência humana através da beleza suprema.

Carta a Baudelaire nº1

Sim! Boa observação, caro Baudelaire. Também acredito que a mulher é um convite a felicidade. E, não consigo julgar a beleza de uma mulher por um pormenor perfeito que se exibe em seu corpo ou por uma face que mais se assemelha a de um anjo a rogar carícias. Julgaria sua beleza pelo conjunto harmonioso que vai desde seus membros voluptuosos ou não, passa pelo seu porte e chega até as suas indumentárias. A maneira com que o tecido desaba pelo corpo feminino concebe distinção àquela que julgo bela.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Sunday in the chapel

recordo-me das cores daquelas manhãs dominicais
o sol nascia com um aroma diferente
e traspassava pelas vidraças
até alcançar os longos bancos de madeira
que tinham um cheiro específico
que não se encontra em lugar algum
senão nos velhos bancos da infância
o sermão ecoava pelas paredes plácidas
a voz do ancião me passava segurança
homens e mulheres com serenidade nas vestimentas
proporcionava o sossego contra o exibicionismo
poucas pessoas circulavam ali pelos domingos de manhã
apenas os com espírito ávido
apenas os de cultura dominical, estóicos
existia um acordo tácito de paz
de não ostentação
uma vontade de desfrutar da tranquilidade
dos templos nas manhãs de domingo

quarta-feira, 3 de março de 2010

Entre física quântica e Baudelaire

A beleza é algo que está na consciência
Há quem julgue belo uma velha construção
Isso depende do que é apreciado pelos sentidos
e processado pelo raciocínio
Um som existe a partir do momento que existe um ouvido
Uma pedra sob o solo só passa a ser vista quando alguém olhando para ela
entende ser uma pedra segundo seu juízo do que aprendeu ser uma pedra
Assim também acontece com o que se considera beleza
se há vitalidade suficiente para extrair a arte de cada momento
há beleza e prazer na vida
A consciência do belo passa a ser um exercício que as pessoas de negócios se afastam porque aos seus olhos a natureza existe apenas em suas relações de utilidade
lançado como bala de um revolver
cruzando rápido sua trajetória
sem medo e sem tempo de pensar
assim busco sentido no acaso que vejo passar rapidamente
assim busco a arte e o divino no corriqueiro